Ganhou o objeto no dia de seu aniversário, e desde então sempre que via algo interessante tirava do bolso, ligava, olhava na telinha e apertava o botão. Pronto registrava ali o que queria guardar para sempre. Em dois anos aquilo que ele queria guardar para sempre passou das 1000 coisas e em três das 10000. Com o tempo ele já não sabia mais o que afinal queria guardar. E de fato percebeu que não tinha guardado nada. Ao final do quarto ano a ação de tirar do bolso, ligar, olhar na telinha e apertar o botão se tornou um ato quase como respirar. A vida se passava por ali. Reduzida a um quadrado. Ele dizia que só assim conseguia perceber o mundo, ali restrito cercado por aquele quadradinho e congelado durante um segundo, para dali ficar registrado em imagens que ele demoraria pelo menos um ano para observá-las todas.
Quando sua coleção beirou 100.000 o braço já ficava naturalmente dobrado para cima na altura dos olhos, duro como um manequim. Na mão o objeto, com a telinha quadrada por onde ele via o mundo. Não olhava mais nos olhos das pessoas. Criou aquela barreira. O seu tempo passou a ser outro. Necessitava sempre de um segundo de congelamento e cada vez mais a comunicação se fez mais difícil. O registro não ficava na sua memória, e sim na do objeto e nos vários cartões de vários gigabites adquiridos nos últimos anos. Tinha se tornado um garoto sem memória, e sem vivência. Vivia para o objeto. Era como se ele fosse uma extensão daquilo até desaprender a ver a vida só com olhos. Um dia o objeto ficou sem bateria. O quadradinho ficou preto. O menino que estava no meio da multidão ficou ali, por alguns momentos inerte, esperando esse um segundo eterno de registro da escuridão. Mas o segundo demorou anos, uma vida. E ele que há muito tinha perdido a memória, se desligou de vez do mundo.
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