Foi triste como tudo começou. Era puro descontentamento. Estava mais pesada do que o normal, mais feia do que queria e com isso se fechou.
Há dias que havia tomado a decisão. Queria mudar, mas não sabia como, nem por onde começar, então há dias que se olhava no espelho, procurando se memorizar… fez várias fotos. De todos os ângulos. Das costas, de lado, de frente. Parava petrificada no espelho. Não acreditava no que via. A cada dia crescia mais de um milímetro. Ela acompanhava, quase como que vendo o crescimento. O movimento da pele de esticar, um pouquinho a cada segundo.
Às vezes parava horas em frente ao espelho. E ali ficava em pé… a olhar. Comprou uma lupa para acompanhar o movimento. Seu próprio movimento que ela não controlava. E crescia um centímetro por semana. Ela começou a observar. A se observar vinte e quatro horas por dia. O seu próprio movimento. Era a pele que ia abrindo sulcos. Pequenos sulcos. E ela calculava. Daqui dois anos vira uma ruga. Pára estática. Petrificada, queria se conservar com formol. Queria ser pedra, que diminui com o tempo. Mas crescia mais de um milímetro a cada dia. E os fios acompanhavam. Todos. E ela olhava com lupa, na raiz. E via, como uma onda, milhares de fios se movimentando, minimamente, todos juntos.. crescendo.
E ela ia se observando nos pormenores. No atrás da orelha e dentro do umbigo…crescendo, cada vez mais fundo. Com o passar dos anos virou enorme. As rugas eram dobras, e o cabelo já ia nas ancas. Era uma figura estranha. Só comia e se olhava. E crescia. O pé já calçava 42, e as roupas de meio ano atrás não cabiam. Ela ia virando massa de pão. E ia se contorcendo na busca dos pormenores. Era dobra que entrava em dobra. Como uma cobra gorda que se enrosca em si mesma. Se transformou em massa. A cabeça já se confundia com a barriga. E ela só olhava o próprio umbigo. Era a única dona do seu nariz, perdido no meio da massa.
A boca já não abria, já não se encontrava. Ela devorava a si própria. As mãos faziam o reconhecimento do próprio corpo, massa disforme. E ela que já foi gente agora era pão cru, pronto para ir ao forno.
Viu as fotos que fez de si própria, antes de se fechar num casulo, do qual ela era verdadeira lesma. Nas fotos a imagem era de alguém nem bonita, nem feia e nem triste, nem feliz. Alguém que tinha forma. E quis ser algo, algo verdadeiramente bonito. Rolou para um lado e para o outro. Se apalpou brincando de massinha com o próprio corpo e se ergueu casa. Simples porém bonita, com porta e janela, se fez oca por dentro, abraçando o grande vazio que dela fez moradia.
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