Domingo, 27 de Fevereiro de 2011
notícias portuguesas
Dona Eraldina vivia num apartamento 5º B. Não tinha filhos e dos sobrinhos sem notícias, nem eles dela. Pitu, seu cachorro, era silencioso. E os dois não eram conhecidos de quase ninguém a não ser deles próprios. Da vizinha do lado, do 5º A, conhecia o cumprimento, e isso era suficiente para lembrar da fala. Um primo semana sim e duas não passava por casa para deixar um abraço e reavivar alguma infância. Eraldina era assim. Vida simples de descer escada, atravessar a rua, ir ao supermercado e mais nada. Palavras poucas e o som do rádio. Cozinhava com gosto, só para ela. E arrumava a casa como se recebesse visitas. Era ela e a sua própria companhia. Conversava com o apresentador da televisão no programa da tarde e tudo isso bastava para preencher seus dias. Um dia, foi notícia. Abriram sua casa, arrumada para enfim uns visitantes. Eraldina estava na cozinha. Pitu ao seu lado, com a fuça na pele dela. A causa da visita foi atraso no imposto. Nem a campainha a companhia tocou. Foi logo entrando. E o cheiro que vinha lá de dentro era de carne, carne apodrecida. Nove anos em espera por alguém que se lembrasse dela. Eraldina caída no chão da cozinha. Sem mais rosto. A vizinha do 5º A ainda disse que tocou a campainha inúmeras vezes por não ter mais ninguém pra cumprimentar, mas ninguém dá ouvidos aquilo que se acha sem importância. E o primo nesse meio tempo desisitiu do tanto sumiço. Depois de Eraldina uns outros tantos foram encontrados largados no chão de suas casas, fazendo do chão de cimento a terra para se enterrar. E no radinho, dizem que tocava uma música vinda do além-mar que diz que no mundo "há tanta gente sozinha que a gente nem adivinha". E depois de muitos anos de espera, o apresentador do programa de depois do meio-dia notou que Eraldina um dia exisitiu, e falou com ela. Que descanse em paz, foram as palavras dele.
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